Cada um de nós tem um sistema de referência intelectual, por exemplo, tenho identidade intelectual com o teólogo e filósofo Leonardo Boff, com o psicanalista Erich Fromm e com o educador Paulo Freire, suas manifestações são recebidas por mim com receptividade e minha tendência é coadunar com essas novas mensagens. Por outro lado, opiniões emitidas por Roberto Damatta, Olavo de Carvalho ou Caetano Veloso, por exemplo, tendem a receber minha imediata antipatia e a possibilidade de recusa é significativa.
Esse tipo de referência é volátil, amanhã posso mudar de opinião, incluir ou excluir nomes em meu quadro negativo ou positivo de referência.
No entanto, há um outro tipo de referência, a emocional: o pai, a mãe, os irmãos, amigos, até mesmo a televisão. Nesse sentido é importante que os pais entendam que tipo de referência estão se tornando.
Esse tipo de referência não é do tipo (como o intelectual) que tenha um filtro reflexivo. Quando o pai ou a mãe fala algo para seus filhos, normalmente eles não param e pensam "Será que isso é verdade?", é o referencial construído pelo falante que determina a aceitabilidade do que é falado.
Se um pai diz "Você não vai!" e o filho vai.
Se um pai diz "É a última vez que eu falo!" e não é nem a penúltima.
Se um pai diz "Agora você vai estudar!" e o estudo não acontece.
Se um pai diz "É só uma hora no MSN!" e o filho fica uma hora e meia.
E assim por diante, a palavra desse pai é imediatamente recebida pelo filho como fracasso, como mentira. Então quando ele diz "Drogas viciam", "Beber e dirigir é arriscado!", "Aquele seu amigo é perigoso!" e assim por diante não tem efeito algum ou, possivelmente, o efeito contrário, isto é, a desmoralização imediata da afirmativa.
Nesse caso, a opinião dos amigos passa a um status superior, o que é um perigo imenso.
Por outro lado, quando um pai diz "Você não vai!" e o filho não vai.
Se um pai diz "É a última vez que eu falo!" e na sequência ele toma um atitude.
Se um pai diz "Agora você vai estudar!" e faz o estudo acontecer.
Se um pai diz "É só uma hora no MSN!" e o filho não chega a uma hora e um minuto.
A palavra desse pai passa a ser recebida como a verdade absoluta, ela não é mediada pela reflexão.
Entrando em um terreno diferente, quero trazer aqui meu testemunho pessoal.
Convivi com minha mãe por 18 anos. Ela sempre dizia "Eu nunca falo nada três vezes" e em 18 anos nunca falou nada três vezes, nunca me perguntou se eu queria ou não verdura e nunca pude recusar (e hoje só não como madeira e pedra), nunca disse "Não vai!" em ocasião que eu tenha ido, assim como também disse que drogas fazem mal e viciam.
A partir dos 15 anos passei a participar de eventos em nível nacional, viajei por vários estados do país, Encontros, Fóruns, Congressos e mesmos festividades, já dividi ambientes com maconha (muita), cocaína e outros e além de não ter jamais sequer experimentado, embora grande parte dos meus amigos fossem viciados, nunca senti vontade de experimentar.
Aí reside o papel da referência emocional, no processo de molde da psiquê do adolescente, não só para referenciar as decisões do filho, mas para formar que ele é!
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